O "tribunal da internet" emergiu como um fenômeno em que as redes sociais abandonam a conexão para assumir um julgamento sumário. Nesse ambiente, usuários atuam como denunciantes e carrascos.
Diferente do sistema judiciário, pautado pelo devido processo legal, a justiça digital é movida pela velocidade e pela carga emocional. É um comportamento que revela o gozo na punição alheia.
Assim, os “trogloditas digitais” projetam suas frustrações em um bode expiatório, reforçando uma superioridade moral narcisista. Eles reduzem as pessoas a imbecis, ignorando a complexidade humana.
Os assassinatos de reputações geram danos psíquicos e isolamento, onde os agressores instauram uma cultura de medo, a autocensura e o empobrecimento do debate público.
Por isso, o cancelamento serve para apontar os erros dos outros enquanto se projeta uma falsa “pureza moral” que esconde as próprias sombras. É uma "justiça punitiva” que busca gerar entretenimento moralista.
Na verdade, o tribunal da internet é o sintoma de uma sociedade doente que perdeu a capacidade de simbolizar a falta e o perdão, preferindo o espetáculo da destruição à construção de pontes éticas.
No entanto, o Marco Civil estabeleceu regras para o meio digital; portanto, é urgente resgatar o conceito de liberdade de expressão, que não é salvo-conduto para o arbítrio.
Enfim, a solução exige reeducação afetiva dos trolladores digitais, trocando o linchamento pelo diálogo, em que o erro é parte da condição humana, não uma sentença de morte moral.
Jackson Buonocore
Sociólogo, psicanalista e escritor
buonocorejcb@gmail.com