(crédito: Reprodução/Redes sociais)
Fernando Cerimedo, consultor político argentino que ganhou notoriedade no Brasil ao espalhar alegações falsas sobre as urnas eletrônicas durante a eleição de 2022, foi preso nesta terça-feira (18) na Bolívia. Ele foi detido no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando se preparava para deixar o país. As autoridades investigam sua possível participação em um ataque a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller, ocorrido na segunda-feira (17).
A prisão coloca novamente no centro do debate o personagem que, em 2022, ajudou a alimentar uma das mais agressivas campanhas de desinformação contra o processo eleitoral brasileiro. Naquele período, Cerimedo apresentou em uma transmissão pela internet um suposto dossiê que questionava a confiabilidade das urnas eletrônicas e insinuava irregularidades na votação que terminou com a derrota de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva.
O problema não era apenas a opinião de um marqueteiro estrangeiro. A transmissão alcançou centenas de milhares de pessoas e foi utilizada como combustível político por setores bolsonaristas que já buscavam construir uma narrativa de fraude para contestar o resultado das urnas. Segundo documentos da Procuradoria-Geral da República, o material divulgado por Cerimedo continha informações falsas sobre o sistema eleitoral.
A máquina da desinformação
O episódio de 2022 mostra como a desinformação política deixou de ser apenas uma publicação isolada nas redes sociais. Ela pode funcionar como instrumento organizado de pressão sobre instituições, eleitores e a própria democracia.
A investigação brasileira apontou que materiais relacionados a Cerimedo apareceram no contexto da tentativa de desacreditar o resultado eleitoral. A documentação da PGR registra que ele apresentou informações infundadas sobre diferentes modelos de urnas e que sua atuação foi analisada pelas autoridades dentro das investigações sobre a ofensiva contra o processo democrático.
É importante, entretanto, separar fatos comprovados de acusações ainda em investigação. Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal no contexto das investigações, mas não foi incluído na denúncia que levou ao julgamento dos principais acusados da trama golpista. Portanto, não é correto afirmar que ele tenha sido condenado por tentativa de golpe no Brasil.
Agora, uma investigação criminal na Bolívia
A nova prisão ocorre por outro motivo e em outro país. Cerimedo é investigado pelas autoridades bolivianas após Nadia Beller ser atingida por três tiros em Santa Cruz de la Sierra. Segundo as informações disponíveis, dois homens disfarçados de entregadores participaram do ataque. Beller sobreviveu e permanece hospitalizada.
A polícia investiga se Cerimedo teve participação no crime. Ele foi localizado no aeroporto enquanto tentava embarcar para a Argentina. Até o momento, a suspeita não equivale a uma condenação, e a investigação deverá determinar sua eventual responsabilidade.
Um personagem que atravessa fronteiras
A trajetória de Cerimedo expõe uma característica cada vez mais presente na política contemporânea: a atuação de estrategistas digitais que atravessam fronteiras e utilizam redes sociais para influenciar disputas eleitorais.
No Brasil, ele se tornou conhecido por atacar a credibilidade das urnas. Na Argentina, trabalhou como estrategista digital ligado à campanha de Javier Milei. Na Bolívia, aparece agora no centro de uma investigação criminal.
O caso também serve de alerta sobre os riscos de transformar a política em uma guerra permanente de narrativas, na qual fatos verificáveis são substituídos por suspeitas, vídeos virais e acusações sem provas.
A prisão de Cerimedo não permite concluir, por si só, que ele seja responsável pelo atentado investigado na Bolívia. Mas recoloca sob os holofotes a trajetória de um operador político que já esteve no centro de uma operação de desinformação com consequências relevantes para o debate democrático brasileiro.
No jornalismo, a diferença entre acusação e condenação precisa ser preservada. Na política, porém, a responsabilidade pela informação divulgada também não pode ser tratada como detalhe. A democracia depende de eleições livres, instituições respeitadas e, sobretudo, de fatos — não de narrativas fabricadas para convencer quem já decidiu em que acreditar.