A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) rumo a Miami, nos Estados Unidos, vem sendo classificada como um "périplo cinematográfico" por especialistas. Após a disputa eleitoral do último domingo, o parlamentar conseguiu deixar o Brasil por vias terrestres em direção à fronteira com a Argentina. A partir do Aeroporto Internacional de Iguazú, o senador e sua família embarcaram em um voo de luxo com destino final em território norte-americano.
O luxo a bordo do "Rolls-Royce dos ares"
Para realizar o trajeto, que incluiu uma escala técnica no Equador para evitar o espaço aéreo brasileiro, a família fretou um jato executivo Gulfstream, operado pela empresa de táxi aéreo argentina BAires Fly. Conhecida no setor como o "Rolls-Royce dos ares", a aeronave de prefixo LV-JQW possui configuração para até 14 passageiros e oferece serviços personalizados de alto padrão, incluindo comissário de bordo dedicado, iPads e enxoval de puro algodão.
De acordo com informações do jornal argentino Perfil, o custo do fretamento foi de US$ 140 mil (cerca de R$ 747,6 mil na cotação do período), valor pago por meio de um intermediário (broker) sediado nos Estados Unidos. A quantia equivale a mais de 17 vezes o salário mensal do senador fluminense. No mercado de usados, o modelo do jato é avaliado em US$ 8,5 milhões, e o custo de sua hora voada varia entre R$ 45 mil e R$ 61,1 mil. A entrada de Flávio nos EUA ocorreu mediante o uso de seu passaporte italiano.
Empresa aérea é peça central de esquema de corrupção na Argentina
A escolha da companhia aérea joga ainda mais holofotes sobre o caso. A
BAires Fly é atualmente
alvo de investigações na Argentina por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro
ligadas à Agência Nacional de Deficiência da Argentina (Andis).
O andamento das apurações na Justiça Federal argentina aponta o seguinte cenário:
- O Esquema: Empresas fornecedoras de medicamentos e insumos médicos obtinham contratos superfaturados com a Andis e, posteriormente, repassavam as propinas milionárias para as contas da BAires Fly. Os valores eram camuflados sob notas fiscais falsas com a descrição de “compra de quilômetros nacionais para utilização em aeronaves” por voos fretados que, na realidade, nunca aconteceram.
- Os Envolvidos: O caso aponta como chefe do esquema Diego Spagnuolo, ex-advogado e aliado do presidente Javier Milei. Um áudio vazado revelou acusações que envolvem inclusive Karina Milei, irmã do presidente. O empresário Sergio Mastropietro é investigado como o operador financeiro e articulador da lavagem de dinheiro dentro da companhia aérea. [1,
- Medidas Judiciais: Diante da gravidade das provas financeiras, a Justiça argentina determinou o bloqueio de bens dos executivos envolvidos e o confisco de aeronaves da BAires Fly para garantir o pagamento de futuras multas. [1, 2]
Reações jurídicas do STF e da Polícia Federal
A saída de Flávio Bolsonaro ocorreu em aberto descumprimento de ordens judiciais expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado havia acolhido um pedido da Polícia Federal que apontou riscos "concretos e atuais" de fuga, ordenando a proibição de deixar o país e estipulando um prazo de 24 horas para a entrega de seus passaportes. O prazo expirou na manhã de terça-feira sem que os documentos fossem entregues. [
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Diante da evasão do parlamentar, as instituições brasileiras se posicionaram formalmente:
- Polícia Federal (PF): Em nota oficial, a corporação esclareceu que não possuía autorização judicial prévia para prender, monitorar ou adotar medidas cautelares mais severas contra o senador antes de sua saída. A PF ressaltou que as restrições burocráticas a documentos de viagem não dão o direito automático à vigilância permanente. Como providência imediata, a PF cancelou os passaportes comum e diplomático brasileiros emitidos em nome do senador, inseriu um alerta migratório no sistema de fronteiras (SONAR) e abriu uma investigação para apurar formalmente o descumprimento das ordens judiciais.
- Supremo Tribunal Federal (STF): A Polícia Federal informará oficialmente o ministro Alexandre de Moraes sobre o descumprimento dos prazos e a evasão do país. Caberá ao ministro avaliar as próximas sanções aplicáveis ao caso. Juridicamente, a violação de medidas cautelares e a saída não registrada do país abrem caminho para que o STF avalie a decretação de uma eventual prisão preventiva, embora o desdobramento dependa de nova análise técnica do magistrado.
Reações políticas
A evasão de Flávio Bolsonaro dividiu opiniões nos bastidores de Brasília:
- Ala Bolsonarista: Parlamentares aliados defendem a saída do senador, argumentando que a retenção do passaporte pela Polícia Federal foi uma medida arbitrária do ministro Alexandre de Moraes.
- Para acompanhar atualizações sobre a carta divulgada pelo senador e os desdobramentos de sua situação partidária, consulte portais de notícias oficiais e os canais de transparência do Poder Judiciário.
Analistas políticos apontam que o senador buscou se abrigar politicamente nos Estados Unidos sob a influência de Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio. No entanto, o cenário em Washington é apontado como incerto, dada a proximidade das eleições legislativas americanas e a pressão de opositores democratas sobre o círculo político de Trump. .